Um dos atributos de Deus mais citados nas escrituras é sua onipotência. Ele é descrito como "Todo-poderoso" [1], o que tem "todo o poder" [2], Aquele para quem "nada é impossível" [3], etc. Entretanto em outros momentos as escrituras parecem impor limitações aos poderes de Deus. Por exemplo, ele "não pode mentir" [4]; em outra passagem Ele está "obrigado" [5] a cumprir sua parte, quando fazemos o que Ele diz. A pergunta que surge então é: Qual das duas situações é figurativa e qual é literal? Deus é ou não é onipotente?
A discussão filosófica sobre a onipotência de Deus é chamada de "Paradoxo da Onipotência", e pode ser dividido em três categorias principais:
1. Paradoxo da onipotência em termos físicos.
2. Paradoxo da onipotência em termos lógicos.
3. Paradoxo da onipotênica em termos de caráter e personalidade.
O propósito deste artigo é apresentar cada uma destas categorias e discutir possíveis respostas. Conquanto cientes de que certeza absoluta sobre temas como este não existe, o debate e a reflexão pode nos levar à um interessante aprendizado.
Paradoxo da Onipotência em Termos Físicos
Esse primeiro tipo de paradoxo da onipotência pode ser resumido no seguinte exemplo: "Poderia Deus criar uma pedra mais pesada do que Ele conseguisse levantar?". Se Deus é capaz de criar a pedra, então Ele deixa de ser onipotente por não mais poder levantá-la; se Ele não pode criar a pedra, então não é onipotente porque existe algo que Ele não pode criar.
Filósofos e teólogos ao longo dos séculos têm tentado resolver este paradoxo. A maioria parece pender para o lado de que Deus não pode criar algo como "uma pedra tão pesada que não possa levantar". Santo Agostinho de Hipona, por exemplo, argumentou que "Deus é chamado onipotente devido a poder fazer o que deseja, e não por permitir que existam coisas que não possa. Portanto, Ele não pode fazer algumas coisas devido ao fato de ser onipotente" [6]. Assim ocorre uma reformulação do termo "onipotência". Em outras palavras, Deus pode fazer todas as coisas, desde que preservem seu status de onipotência.
Paradoxo da Onipotência em Termos Lógicos
Ese segundo tipo de paradoxo pode ser descrito da seguinte forma: "Pode Deus fazer coisas como desenhar círculos-quadrados ou corretamente calcular 1+1=3?". Esse paradoxo é de certa forma mais complicado do que o primeiro, pois esbarra na própria definição de conceitos como círculos e conjuntos numéricos. Um "círculo-quadrado" ou continuaria sendo um círculo (não tendo nada de quadrado), ou passaria a ser um quadrado e perderia suas propriedades de círculo.
A maioria dos filósofos e teólogos respondem a este paradoxo de forma semelhante ao primeiro, de que Deus é onipotente "de acordo com a consistência de sua própria natureza", como diria o Dr. William Lane Craig [7], significando que tudo que Deus pode fazer está dentro de uma consistência lógica.
Paradoxo da Onipotência em Termos de Caráter e Personalidade
Talvez esse seja o mais "fraco" dos paradoxos, pois esbarra numa discussão sobre a literalidade dos atributos e personalidade de Deus. Algumas passagens das escrituras afirmam coisas como "Deus não pode mentir" (atributo da verdade) ou "Deus está obrigado quando fazemos o que é ordenado" (atributo da honestidade) [4,5].
Se interpretarmos essas passagens como literais, então de fato há uma limitação à onipotência de Deus no fato de que Ele, por exemplo, é incapaz de mentir. O contra-argumetno óbvio aqui seria de que Deus poderia, se o desejasse, agir de maneira imoral (contar uma mentira, ser desonesto, etc.), porém Sua atitude é consistente com seu entendimento dos princípios morais que ensina, o que retorna a posição do Dr. Craig sobre "onipotência consistente com sua natureza".
Conclusão
Algumas pessoas talvez vejam esta discursão como frívola e acreditem numa abordagem mais "radical" das coisas, como proposto por Harry Frankfurt [8]: a onipotência de Deus é tal que Ele pode todas as coisas, inclusive quebrar leis da natureza e regras da lógica bem estabelecidas. Esse pensamento é complicado, entretanto, por incorrer em seu próprio paradoxo: se Deus é onisciente, por que criar leis naturais e lógicas que o limitassem ou que viessem à ser quebradas? É consistente, portanto, imaginar que Deus de fato opera com um tipo de onipotência consistente com a lógica e com sua própria natureza.
REFERÊNCIAS:
[1] Apocalipse 1:8, 19:6;
[2] Alma 26:35, D&C 19:3;
[3] Lucas 1:37, Isaías 43:13;
[4] Hebreus 6:18;
[5] D&C 82:10;
[6] Santo Agostinho de Hipona, "A Cidade de Deus", na versão inglesa - pg. 93.
[7] William Lane Craig, "Reasonable Faith", n.96: Logical Truth and Omnipotence.
[8] Harry Frankfurt, "The Logic of Omnipotence", Philosophical Review (1964).
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